A disciplina de Ética é considerada uma das áreas da filosofia que desperta mais interesse na sociedade, pois está diretamente ligada às demandas diárias da vida social, sempre convidando os cidadãos à refletirem sobre seus atos, suas decisões, responsabilidades e na melhor forma de convivência. Atualmente, diversas profissões adotam um código de ética, buscando normatizar a conduta dos profissionais da área e a harmonia social na realização de sua profissão. Entretanto, é notório o momento de intensas mudanças culturais que vivemos demandando uma crítica e revisão dos padrões éticos estabelecidos.

Diversos filósofos e professores da área, em épocas distintas, abordaram o tema. Diversos são os significados de ética ao longo da história do pensamento. Desde a Grécia antiga até os dias atuais, o conceito da ética vem sofrendo mudanças consideráveis sendo, de fundamental importância, a compreensão da essência do significado ao longo dos tempos. Para Marcondes (2007, p. 9) “etimologicamente, a palavra ética origina-se do termo grego ethos, que significa o conjunto de costumes, hábitos e valores de uma determinada sociedade ou cultura”. Segundo Vázquez (1983, p. 12), ética “é a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade”.

É possível que a ética seja uma ciência de trate de uma forma diferenciada o comportamento humano e moral dos indivíduos na sociedade, na forma como agem e como deveriam agir quando estão convivendo. A sua existência surge a partir do momento em que questionamos a própria conduta e suas possíveis consequências, sendo inicialmente uma ação interior, psicológica e subjetiva. É um fenômeno exclusivamente humano, pois a ética pressupõe capacidade e poder par deliberar sobre a própria vida refletindo sobre as crenças, princípios e valores motivadores, e ainda, projetar as possíveis consequências. E ainda, é a primeira forma de verificação da conduta, sendo precedida pela consciência. Pode-se dizer que a ética também é a disciplina que estuda os princípios e valores norteadores da conduta humana.

E quando o assunto adentra o espetro da ética nas organizações, o desafio aumenta exponencialmente. Isso se deve a partir das próprias características das relações de trabalho, pois envolvem hierarquia, relações de poder e influência, direitos e deveres das partes, remuneração, empenho de mão-de-obra, cobrança, necessidade de resultados, dentre outros fatores críticos e complexos.

Os conflitos trabalhistas atingem números espantosos no Brasil. Segundo o relatório do Conselho Nacional de Justiça, tramitaram na Justiça do Trabalho, em 2012, cerca de 7 milhões de processos, sendo 3,8 milhões de casos novos e 3,2 milhões de casos antigos. Parte do aumento de ações trabalhistas decorre de empregadores que descumprem a lei. Dados recentes apontam que as empresas gastam cerca de R$ 110 bilhões por ano com litígios judiciais.

Os transtornos mentais e comportamentais estão entre as principais causas de perdas de dias de trabalho. Os casos leves causam perda de quatro dias de trabalho/ano e os graves cerca de 200 dias de trabalho/ano, em média (DEMYTTENAERE et al., 2004). No Brasil, no ano de 2010 os transtornos mentais e comportamentais padronizados pelo capítulo V da Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, versão 10 (CID10), foram a terceira principal causa de concessão de benefício auxílio-doença por incapacidade laborativa. Com incidência de 9% do total, mais de 201 mil novos benefícios foram concedidos no ano e cerca de 6% foram considerados acidentários. Ou seja, a perícia previdenciária considerou que o processo de adoecimento foi desencadeado ou uma doença de base foi agravada a partir da exposição a fatores presentes no trabalho (MPS, 2011).”

Os índices acima apontados vêm crescendo e evidenciam a ausência de limites de tolerância individual às condições estressoras de natureza psicossocial. No Brasil, em 2014, os transtornos mentais e comportamentais foram a principal causa de concessão de benefícios, segundo relatório da Previdência Social de maio de 2015. Nem todos os afastamentos do ambiente do trabalho, de natureza de saúde mental, possuem relação causa-efeito com o trabalho. Entretanto, é passível de investigação os efeitos do assédio moral para as organizações e para o trabalhador.

Por outro lado, é sabido que há uma forte cultura que busca resguardar direitos dos trabalhadores sem que, necessariamente, haja a observância das bases contratuais, faltando a proficuidade prevista nos contratos de trabalho, deixando, por vezes, as empresas vulneráveis aos riscos jurídicos e colocando a sua produtividade e existência em risco. Nestes conflitos, todos saem perdendo: a empresa perde ótimos colaboradores, a família sofre com as doenças mentais de seu ente querido, a sociedade perde um cidadão produtivo, a previdência social perde e a justiça do trabalho fica abarrotada de processos trabalhistas indenizatórios.

O caminho é o esforço coletivo para mudar este padrão cultural “colonial”, que ignora os riscos mais evidentes n busca cega pelo lucro. É discutir sim os melhores ajustes da organização para viabilizar a boa convivência, aquela que foca na produtividade respeitando a dignidade do ser humano. As regras da boa convivência contempla e respeita as diferenças entre os colaboradores, buscando trazer ao nível da excelência o que cada um tem de melhor. As regras de boa convivência, fazem com que os líderes sejam mais preparados para desafiar de forma equilibrada os seus liderados, respeitando as suas individualidades, pois a ética influencia diretamente a produtividade das organizações.

Robson Vitorino é sócio da Maxta Cosultoria e Treinamento, Palestrante, especialista em Gestão de Pessoas e Liderança, professor em cursos de MBA e Pós-graduação. 

 

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