Boa parte dos problemas que lidamos no dia a dia, trata-se de um efeito de um outro problema. Sim, refiro-me à antiga análise de causa e efeito. Observando a ética no ambiente de trabalho, que vem sendo objeto de meus estudos e pesquisas há 9 anos, não há como ignorar que o problema da corrupção, como macro tema, é sem dúvidas ainda uma incógnita para a gestão brasileira. Dentre os diversos níveis da corrupção, podemos especificar o assédio moral e sexual, efeitos agravados deste.

Lembro-me que em uma de minhas andanças, num voo para São Luís – Maranhão, a minha poltrona do avião era a do meio, e na janela e corredor estavam dois amigos, na verdade sócios de uma rede hoteleira. Obviamente cedi o meu assento, e a partir daí engajamos uma conversa sobre negócios. Os dois estavam animados com um novo programa de qualidade que estavam implementando em sua rede hoteleira. Tratava-se de um esforço integrado para resolução de problemas, a fim de proporcionar uma estadia com excelência para os seus hóspedes. Qualquer colaborador que visse algum problema, de qualquer natureza, que comprometesse a experiência da hospedagem, o deveria reportar por meio de um aplicativo de uso exclusivo dos colaboradores. Desde uma lâmpada queimada, até a um reparo da água quente em um dos quartos. A ideia era resolver todos os problemas em no máximo 10 minutos. Pensei imediatamente que, potencialmente, o custo envolvido neste programa poderia ser empregado, e até reduzido, se investido num programa de prevenção aos problemas correntes (previsíveis). Mas não tive coragem de falar isso à eles diante de tanta euforia.

Somos condicionados a perceber prioritariamente os efeitos do problema, e combater os diversos efeitos deste problema em detrimento de uma análise mais qualificada, para empregar tempo e energia para eliminar o problema nuclear, ou  problema central. Interessante, é que a ansiedade, disfarçada de “pragmatismo”, é o grande ameaçador desta etapa inicial de diagnóstico. É fundamental que só se parta para a etapa dois (solução) quando o problema estiver bem claro. Quando mal feito o diagnóstico, os efeitos do problema central acabam ficando em evidência e o problema central propriamente dito, acaba ficando mascarado, acarretando em desperdício de tempo e recursos atacando os efeitos, enquanto se deveria atacar o problema central. Geralmente, muitas pessoas acabam sendo ludibriadas pelos efeitos do problema central, que geralmente é mais facilmente identificado, conforme exemplificado na figura abaixo:

No livro “Rápido e Devagar, duas formas de pensar”, o prêmio Nobel, Prof. Dr. Daniel Kahneman, apresenta diversos experimentos relacionados ao padrão cognitivo relacionado à repetição. Repetir o local onde se almoça, repetir o trajeto de casa para o trabalho, são padrões cognitivos, segundo o autor, que se desenvolvem com o objetivo de economizar energia, já que todo e qualquer processo decisório consome energia. Naturalmente, tendemos a repetir comportamentos a fim de economizar energia para outras demandas. Neste sentido, a análise mais criteriosa de problemas, tende a demorar mais e a consumir mais energia. Talvez, este seja o motivo ao qual, diversas equipes de trabalho ainda falhem sistematicamente na resolução de problemas, empregando tempo energia, e voltando a lidar com os mesmos problemas.

O que estamos testificando é um movimento nacional de empresas de todos os portes, empenhadas em criar códigos de conduta e programas de compliance, canais de denúncia como sendo a”chave” para dirimir tais conflitos. Será que de fato estamos diante do problema central ou diante dos efeitos do problema? Qual é a origem da corrupção no ambiente de trabalho? Quais os aspectos motivadores para que o assédio moral e sexual aconteçam? Como prevenir ao invés de remediar?

Longe deste autor a intenção de liquidar uma questão tão complexa, e ainda, apresentar a solução milagrosa para o problema central. Entretanto, um bom começo é buscar refletir sobre a reação causa e efeito, e ainda, buscar compreender qual é o problema central, causa primeira que desencadeia o processo e corrupção.

Uma primeira corrente de pensamento nos permite analisar o caso a partir da engenharia reversa da conduta. Ou seja, sabemos que toda conduta, simulada ou não, é a manifestação de valores. E os valores são critérios que utilizamos para guiar a nossa conduta. Tais valores estão fundamentados em crenças. E as crenças podem ser fundamentadas em sentimentos, razão e fé, ou um misto de todas as três. Senão, vejamos:

Um sujeito que cresceu vendo o pai agredir a sua mãe. A crença sugerida é de que o homem é superior à mulher, devendo a mulher ser subserviente ao homem, sob a pena de ser agredida. Se esta for uma crença verdadeira para o menino, que agora chega ao mercado de trabalho, potencialmente, ao ocupar um cargo de liderança, poderá ser parcial no trato com as mulheres. Um crença que influencia o seu juízo de valor, gerando uma conduta corrupta. Crenças pouco fundamentadas em verdade, geram valores duvidosos, que por sua vez eclodem em condutas reprováveis moralmente.

Por exemplo, na Índia, vacas possuem muito valor. No Brasil também. Em ambas as culturas existe a crença de valorizar a vaca. Enquanto na Índia esta crença se manifesta de maneira sagrada, sendo a vaca venerada, no Brasil, esta crença se manifesta atribuindo valor econômico, se aproveitando de todo o potencial produtivo da vaca. As crenças são similares, sendo a manifestação de valores bem distintas. Em muitas organizações, os principais conflitos acontecem no campo dos valores, sendo cabível, em boa parte dos casos, algum tipo de conciliação.

Quando as crenças são fundamentadas apenas em sentimentos, historicamente, criam-se valores duvidosos quanto à sua moral. Durante muito tempo boa parte da sociedade acreditava que as pessoas de pele branca eram superiores às pessoas de pele negra. E esta crença ainda causa muitos prejuízos em diversos países. Outro sentimento que também gerou uma crença moralmente equivocada é de que as mulheres deveriam se dedicar às atividades domésticas e não se envolver com nenhuma atividade econômica, política e social. Com a prerrogativa de proteção à mulher, aparentemente um sentimento nobre, acabou privando a mulher em sua liberdade em diversas sociedades, durante séculos. Crenças fundamentadas em sentimentos podem gerar valores duvidosos condutas imorais.

O problema não é o comportamento indesejado, é preciso buscar a causa, e, em muitos casos, a causa está na crença ou nos valores do agente corruptor. Como no exemplo acima, da crença e o valor da vaca no Brasil e na Índia, a crença é similar e os valores são divergentes, mutatis mutandis, um líder que se depara com situação similar, deve identificar que o problema central é a divergência de valores, não cabendo escolher o que é o certo ou errado, e sim evitar e amenizar confrontos pessoais, e tirar proveito do conflito de ideias. Há no conflito de ideias a possibilidade de enriquecer o diagnóstico e perceber melhor o que é o problema central, cabendo ao líder a decisão final e a responsabilidade sobre o destino da vaca, utilizando como critérios os valores da organização.

Os casos de assédio moral e sexual estão diretamente relacionados à crença do assediador, e portanto devem ser analisados com foco no problema central. Observando o modelo ao qual as leis (sistema legal) alcançam os seus objetivos, temos diante de nós duas possibilidades: Ou o cidadão age corretamente por consciência moral, motivado pela própria consciência, ou age motivado pelo medo da sanção. Historicamente, países e organizações adotaram o modelo da sanção, por meio do intenso exercício de poder e das estruturas hierárquicas. A mesma história vem provando que o problema da corrupção ignora totalmente os ricos mais severos. Ora, aquele que está neste momento montando um plano para agir de forma corrupta, atribui pouco ou nenhum peso ao risco de ser descoberto e punido. Caso considerasse o risco envolvido no ato de corrupção, talvez desistiria. É a esperança de obter vantagem crescendo sobre um sistema moral fraco, ignorando os riscos inerentes.

Portanto, os casos de corrupção no ambiente de trabalho, incluindo, os casos de assédio moral, não podem ser tratados apenas com soluções compliance, embora seja inquestionável a sua necessidade como cultura estabelecida. Há de se aprimorar os processos de recrutamento e seleção, como vem ocorrendo em algumas organizações. É fundamental a valorização e concessão de liberdade para que os psicólogos organizacionais atuem com mais critérios e aperfeiçoem tais processos. É recomendado o uso de soluções de People Analytics, sistemas que mesclam Big Data e Business Inteligence, com registro de dados e informações que permitem diminuir o nível de intuição e qualificar o diagnóstico comportamental e cognitivo dos colaboradores, auxiliando os gestores a tomarem decisões mais assertivas.

Entretanto, nenhum sistema de compliance, nenhum sistema de People Analytics, terá utilidade se os gestores continuarem a canalizar seus esforços para atacarem os efeitos do problema. O desafio é cortar o mal pela raiz. Talvez seja esta a raiz do mal.

Prof. Robson Vitorino é diretor executivo da Maxta, escritor, professor e palestrante. É autor dos livros “Delegação de Tarefas e Empowerment” e co-autor do livro “Reflexões de um Estrategista”. É professor de pós-graduação e MBA no IBMEC. Instagram: @rvitorino33

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