Recebi uma mensagem de um ex-aluno muito interessante:

” Judas teve o melhor pastor
Judas teve o melhor líder
Judas teve o melhor mestre
Judas teve o melhor sábio
Judas teve o melhor amigo
e mesmo assim fracassou.
O problema nem sempre é da liderança.”

O caso parece simples, mas de simples não tem nada, pois demanda análises a partir de perspectivas variadas, como a teológica, a filosófica, a corporativa etc. Na perspectiva teológica, dos diversos entendimentos cabíveis, destaco o que considero mais coerente: Deus envia o seu único filho para morrer pelos pecadores. O sacrifício de Jesus foi da vontade do Pai, sendo assim, Judas fazia parte do plano, mesmo sem saber. A partir deste entendimento, ter um traidor na equipe fazia parte do plano e não houve falha nem de Jesus e nem de Judas, conforme a vontade soberana de Deus.  (Sim, eu sei que há outras diversas interpretações cabíveis neste episódio).
Na perspectiva contemporânea, analisando o cenário corporativo, parece que a culpa não é do líder. Mas será mesmo?
Líderes que não sabem recrutar e montar a sua própria equipe, trazendo pessoas para a sua equipe que não possuem valores éticos e morais alinhados com a cultura da empresa. Mais cedo ou mais tarde irão trair. E ainda, o pior, líderes antiéticos que conseguem desvirtuar seus seguidores a partir do mau exemplo.

Vivemos tempos de elevado individualismo. É quase imperativa a lei do salve-se quem puder e a lei do “Cada um por si”, mas sem a parte final do “Deus por todos”. É Maquiavel na veia: “Em caso de emergência, máscaras de oxigênio cairão. Coloque a sua máscara primeiro e depois ajude os outros“. Talvez você esteja se perguntando: Mas eu tenho todo o direito de me preocupar comigo e não tenho obrigação de ajudar os outros. Vivemos numa sociedade de mercado onde tudo é vendido e comprado. Seres humanos são vendidos, outros vendem seus corpos ou ainda, parte de seus corpos (rins, etc.). Na Índia é legalizado a “Barriga de aluguel”. Nos EUA civis pagam para militares profissionais servirem à pátria em seu lugar. Tudo está à venda e tudo pode ser comprado, diz a parte extremada da ideologia liberal de mercado. A questão é que o individualismo extremado nos coloca nas mesmas condições de Judas, ou seja, de perder a noção dos limites éticos e morais, achando que tudo tem um preço, tudo pode ser comprado e vendido. E por vezes, este pensamento utilitarista acaba por nos induzir a julgamentos equivocados e dilemas morais. Mas neste caso, a perda de referenciais éticos e morais recaem sobre o líder, sim, os nossos primeiros líderes, os pais ou aqueles que criam os filhos. Estes são os primeiros referenciais de liderança que uma criança tem. Ali estão os referenciais morais e éticos que irão influenciar a criança numa etapa fundamental da formação do caráter e da personalidade. A culpa também é do líder.

Um pesquisador estava analisando os costumes de uma tribo africana. Em determinado momento ele estava com as crianças e resolve então fazer uma brincadeira. O pesquisador coloca um cesto de doces embaixo de uma árvore e lança um desafio para as crianças: Quem chegar primeiro no cesto, leva todos os doces. E quando disse já, elas deram os braços e foram correndo em direção ao cesto, chegaram juntas e comemoraram juntas. O antropólogo olhou assustado para aquela situação e uma das crianças lhe disse: Ubuntu tio! Ubuntu! Como poderíamos ficar feliz se algum de nós poderia ficar triste?

Ubuntu é uma palavra que revela uma ética antiga africana que significa: Sou quem sou porque somos todos nós. Ubuntu é a consciência de que somos afetados quando um semelhante nosso é afetado. É a empatia como padrão de relacionamento, ou seja, se colocar no lugar do outro antes de agir. É a manifestação coletiva da compaixão. É o esforço para conter o “homem primitivo” em nós, e exaltarmos a civilidade como modus operandis.

Portanto, o mérito pelo sucesso e a culpa pelo fracasso é nossa, somos todos um. Líderes e liderados. Ubuntu!

Robson Vitorino

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