É difícil encontrar na história do Brasil registros de uma crise de confiança tão intensa como a que estamos vivendo agora. E esta crise começa em casa, na família, maridos não confiam nas esposas que não confiam nos maridos. Pais que não confiam em filhos que não confiam nos pais. Está muito difícil acreditar no Governo, na Justiça e até na imprensa. Não que seja uma virtude desconfiar de tudo e todos, mas a confiança anda escassa. Mas o que é a confiança?

Confiança é uma expectativa positiva de que a outra pessoa não agirá de maneira oportunista, seja por palavras, ações ou decisões. Os dois elementos mais importantes implícitos aqui são a familiaridade e risco. Tal expectativa positiva não vem do nada, pressupõe a existência de alguma familiaridade e/ou conhecimento entre as partes. Por vezes, a confiança é fruto de um histórico de interações relevantes, demanda tempo para ser formada, pois observa o passado para projetar o futuro. A maioria de nós tem sérias dificuldades em confiar em alguém de imediato, sem saber nada sobre a outra pessoa. E quando isso acontece, a pessoa é taxada como ingênua. O que geralmente vemos são pessoas apostando, mas não confiando. Aposta não é confiar, é jogar com a sorte. A medida que conhecemos uma pessoa, temos mais condições de formar uma expectativa, seja ela positiva ou negativa.

Toda forma de confiança é risco. Caso contrário seria fé, mas não entraremos aqui na metafísica. Quando falamos em risco, o frio na barriga advém da vulnerabilidade, da possibilidade da quebra de expectativa, de frustração e decepção. Mas confiança implica que nos tornemos vulneráveis. Lembra aquele segredo seu que aquela pessoa de confiança sabe? Portanto, quando confio em alguém, presumo que esta pessoa não irá se aproveitar na minha confiança de maneira oportunista. O oportunismo quebra a confiança, e o remédio aqui é a fidelidade. Talvez a crise generalizada de confiança tenha a sua principal raiz na falta de fidelidade.

Fidelidade é o termo com origem no latim fidelis, que significa uma atitude de quem é fiel, de quem tem compromisso com aquilo que assume. É uma característica daquele que é leal, que é confiável, honesto e verdadeiro. O ponto crítico de reflexão é justamente o referencial a que se é fiel. O referencial essencial aqui é a história vivida entre as partes. Portanto, a fidelidade é uma virtude que une o que já vivemos (passado) com o que estamos vivendo no presente. Segundo o professor Clóvis de Barros Filho “A fidelidade é uma forma de homenagear a história compartilhada”. É uma forma de valorizar a história vivida, assim como a infidelidade é a desvalorização da história vivida. Se esta história for realmente boa e valiosa para o indivíduo, então ao optar em continuar valorizando esta história a consequência é a fidelidade. Mas então, em qual situação se é infiel? Por analogia, quando se analisa o presente e projeta-se um futuro promissor, capaz de agregar mais valor do que o passado. Neste caso, a fidelidade e a infidelidade são faces da mesma moeda. Necessariamente sempre que estamos sendo fiéis à uma coisa estaremos sendo infiéis à outra. O traidor sempre será infiel para o traído, mais o motivo da traição é a fidelidade para com a outra parte.

Nós brasileiros somos taxados por ter uma curta memória. E memória curta implica em histórias curtas ou poucas histórias. E sem histórias, não há fidelidade. Sem fidelidade não há confiança. Cadê as histórias? Cadê a memória dos brasileiros? Das famílias?

“Brasil! Mostra tua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim. Brasil! Qual é o teu negócio? O nome do teu sócio? Confia em mim.”

Robson Vitorino – É professor do IBMEC, especialista em Gestão de Pessoas e Liderança. CEO da Maxta Consultoria e Treinamento.

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