Pasme, mas expediente já foi sinônimo de tempo empregado para trabalhar. Originalmente, expediente implica no esforço para facilitar, ou ainda, meio para se obter êxito em algo, esforço canalizado para a obtenção de um resultado. Incrível mesmo, é a insistência de algumas empresas de que o expediente seja o indicador de produtividade. Já foi. Passou.

Mas o que significa dizer atualmente que uma pessoa cumpriu o expediente? Podemos dizer que esta pessoa está presente?

A cultura industrial nasce num contexto cultural em que era possível comprar o tempo do empregado. Ora, sabemos que não é mais possível fazê-lo em pleno século XXI. Com a cultura tradicionalista o máximo que se consegue, é monitorar quanto tempo que o empregado esteve fisicamente dentro e fora da empresa. Estar presente é muito mais do que estar ali fisicamente. Não que aconteça conosco, mas certamente você conhece um amigo que faz de tudo durante o expediente, menos trabalhar. Na era do conhecimento, o capital intelectual é o principal insumo do trabalho. Como o professor Zygmunt Bauman aborda em suas obras, a cultura líquida moderna é marcada por uma facilidade de se abster rapidamente do ambiente presente, e se projetar no mundo virtual, desejado e fantasioso. É fácil perder o foco, se distrair, se perder nos “cliques” e “zaps”. E isso tudo pode acontecer durante uma reunião ou durante o tempo que deveria ser destinado a preparar o relatório.

Portanto, a presença física não é suficiente, é preciso estar mentalmente focado no trabalho, caso contrário a empresa não terá o capital intelectual aplicado e entregue pelo colaborador. Certamente uma quebra de contrato.

Você sabe quantas horas você realmente trabalha por dia? Qual é o objeto do contrato entre você e sua empresa? Será que você está entregando o combinado?

Por outro lado, existem aqueles que nem enquanto estão dormindo deixam de cumprir o expediente, por sonharem com o trabalho e com as demandas da empresa. Seja no sagrado horário de almoço, no trajeto do trabalho para casa, no final de semana, a tecnologia nos mantém a um clique do chefe. Nestes casos, o colaborador entrega muito mais do que o combinado, embora raramente seja remunerado de forma correta e justa pelas horas extras, que são altamente complexas para serem comprovadas.

De um lado trabalhadores que enrolam, buscando entregar o mínimo e serem remunerados pelo tempo que permanecem na empresa, não pelo trabalho em si. Por outro lado, colaboradores altamente comprometidos, entregando muito mais do que o combinado, chegando a trabalhar quinze horas por dia. E em meio a isso tudo, a nossa CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), relações entre duas pessoas jurídicas, cooperados, etc. Diversas formas jurídicas de relacionamento comercial. As leis possuem papel fundamental para regular tais relações, entretanto, é fato que a CLT carece de ajustes, pois ainda concebe o expediente, como apontamos no início deste artigo.

A ética é o esforço racional para que seja possível a convivência. De um lado colaboradores dando esmolas de tempo para a empresa, de outro a empresa buscando obter dedicação além do tempo combinado. A falta de harmonia e equilíbrio das relações trabalhistas vem gerando um aumento exponencial na justiça do trabalho e afetando diretamente a produtividade de muitas empresas.

A partir das lentes da ética, no contexto corporativo, é possível entender que, atualmente, o expediente é o tempo dedicado integralmente para o alcance dos objetivos propostos. Consiste no esforço braçal e intelectual, cujo tempo e remuneração estejam combinados entre as partes. O expediente precisa ser tangível, e tal tangibilidade implica na capacidade de mensurar o trabalho individual. E o trabalho individual, é o resultado do esforço, do tempo, do conhecimento e comportamento do colaborador. Sim, a depender do tipo de atividade, estamos em terreno arenoso, com desafios gigantescos.

É fato que as relações de trabalho merecem ser refletidas não somente no âmbito legal, mas no âmbito cultural, da porta da empresa para dentro. Entre liderança e liderados. Criticando e buscando uma forma mais honesta, equilibrada e sustentável para que as partes cumpram o acordo. De um lado as leis orientam a conduta por meio da coerção, do medo. Mas, a reflexão interna, por parte dos líderes e liderados, tem o poder de gerar uma consciência ética e responsável. E quando temos uma consciência ética do expediente, podemos dizer que há engajamento.

Que as leis sejam revistas, mas que nunca deixemos de exercitar aquilo que vem sendo considerado o maior dom dos seres humanos: o poder da inteligência, do raciocínio da deliberação racional.

Aí na sua empresa como funciona a ética do expediente?

Robson Vitorino é CEO da Maxta, especialista em Gestão de Pessoas e Liderança. É professor do IBMEC.

 

 

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