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Visão de Dono – Utopia ou Realidade?

macaco de imitação

Depois que uma grande empresa do segmento de bebidas do Brasil inseriu este conceito em seu grupo de valores corporativos, pronto, virou moda, agora diversas empresas inseriram este “valor” em seu painel de diretrizes estratégicas que fica na recepção da empresa, junto com a missão e visão. É sabido que este conceito tem por objetivo obter dos colaboradores que não são donos, uma visão de que se como donos fossem preocupando-se com os custos, com a margem de lucro, com a reputação da organização, com sabotagens, com as melhorias e inovações, com o cumprimento de prazos e o padrão de qualidade, com o bom relacionamento com os clientes, tratando-os como se donos fossem. A depender da cultura, este escopo sofre alterações, entretanto, sem alterações em seu conceito central.

Os valores são critérios utilizados para decisões e julgamentos, e traduzem as nossas preferências. Um valor tem o poder de influenciar e parametrizar comportamentos. Se em uma determinada organização a pontualidade é um valor, para estar alinhado à cultura organizacional, é recomendado que os colaboradores sejam mais diligentes com os seus horários de trabalho. Portanto, quando o assunto são os valores corporativos, estamos lidando com uma equação cujas variáveis compreendem em pensar, decidir e agir estrategicamente, minimizando o pensamento espontâneo e priorizar o comportamento estratégico, ou seja, agir de maneira alinhada ao comportamento organizacional.

Quando se diz que “Ter visão de Dono” é um valor, espera-se que o colaborador busque a todo momento pensar, decidir e agir como o dono. Mas como isso é possível? Basta colocar no banner dos “Valores” o valor “Ter visão de dono” e pronto? E ainda, mesmo que o melhor professor monte o melhor treinamento do mundo, será possível que os colaboradores tenham integralmente a tal visão de dono?

A história da liderança é generosa em nos apresentar exageradamente os exemplos concretos de líderes que conseguiram gerar em seus liderados a visão de dono e foram traídos por eles. A partir desta perspectiva, inclusive, é possível compreender os princípios de liderança e relações de poder de Maquiavel em “O Príncipe”. Mas a história também nos permite encontrar alguns líderes que conseguiram gerar em seus seguidores a essência da “visão de dono”. O que dizer sobre a liderança de Jesus Cristo? Uma Liderança que conseguiu gerar nos seguidores a “visão de dono” ao ponto de o líder poder se ausentar por tempo indeterminado do empreendimento e este continuar crescendo e se expandindo. Isso é visão de dono, mas o caso diz respeito ao Filho de Deus (o próprio Deus encarnado, Trindade). Talvez, conseguir gerar nos liderados a “Visão de dono” integralmente seja um atributo divino.

Por outro lado, alguns donos têm se equivocado ao tentar difundir a cultura da “visão de dono”. Erram em achar que todos devem pensar como ele e concordar com ele. Na história do pensamento, remontando a Grécia antiga entre por volta do século VI a.C, encontramos relatos do surgimento da dialética, que é o método de diálogo que visa, por meio de contradições e contraposições, encontrar a verdade, ou seja, o raciocínio de mais valor, o conhecimento válido. Desde então, as sociedades orientais e ocidentais, valorizam a boa e velha dialética como método para validar ideias e gerar conhecimento. Em uma intrigante entrevista o CEO chamado Victor Ho, cofundador de uma empresa de serviços, que arrecadou mais de US$ 100 milhões a partir de investimentos de risco falou sobre seu papel na McKinsey & Company, e de uma conclusão subversiva que trouxe de lá. “A lição mais relevante que eu aprendi na McKinsey, e que agora compartilho com cada funcionário que contrato, é aquilo que chamam de ‘obrigação de discordar’”, disse ao New York Times. “Significa que a pessoa mais jovem, no nível mais júnior em qualquer sala de reunião é aquela mais apta a discordar da pessoa no nível mais alto na mesma sala. ”

Como ter a “Visão de dono” se não há o direito de discordar como o dono? E ainda, a remuneração nada se parece com a dono. Não há flexibilidade de horário como o dono. Talvez, pior do que os colaboradores não terem direito a mais nada como “dono”, e não ter nem a esperança. Explico. Um bom plano de cargos e salários, um plano meritocrático, poderá gerar nos colaboradores a esperança de se parecerem mais com o dono, entretanto, fato corrente é que as regras não permitem que todos sejam como o dono, pois se isso acontece o sistema quebra. Ademais, raramente um plano de carreira conseguirá conter a ganância e a vaidade do “velho dono”. Pois se todos forem como o dono, o dono já não terá tanto prestígio, poder e influência. E ainda, em diversas organizações, colaboradores possuem expertise que o dono não possui agregando multidisciplinaridade e conhecimento diversificado.

Mas será que realmente o dono deseja que os seus colaboradores tenham a sua visão? Talvez seja um exagero enquanto o que se deseja de fato é que se tenha mais ética e responsabilidade na condução do trabalho. Nicolau Maquiavel lembra que é melhor assim, pois se o colaborador tiver as demais prerrogativas de dono, pode ser que seja mais competente e tome o lugar do dono. Agora, se isso não for um problema para você, é possível que esteja realmente preparado para liderar e difundir o valor de “visão de dono”.

Robson Vitorino, é escritor, sócio diretor da Maxta Consultoria e Treinamento, professor do IBMEC, palestrante e consultor na área de Gestão de Pessoas e Liderança.

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