É no mínimo curioso como a visão pessoal de mundo altera substancialmente o significado das palavras. Certa vez li numa rede social que falta amor no mundo, mas também interpretação de texto. Eu vou mais longe, falta compreensão do significado real das palavras, o que certamente afeta a interpretação. É o caso da palavra “discriminação”. Como vem sendo empregada de maneira errada. E o que dizer do medo que lateja na mente do cidadão contemporâneo de ser rotulado como alguém que discrimina. Amigo leitor, não se engane você é um discriminador. Somos todos discriminadores. Até mesmo você que vive acusando o outro de discriminação, também o é.

Um conhecido publicou numa rede social, utilizada para fins profissionais, uma dúvida a respeito de processo seletivo. Sendo ele empresário totalmente adepto ao modelo meritocrático de remuneração e bonificação, buscava evitar os problemas já vividos por conta de posição política extremista de um colaborador. A dúvida dele era se ele poderia utilizar alguma pergunta verificadora no processo seletivo para identificar a posição política do candidato e, sendo de base comunista e socialista, ele não contrataria.

Estamos diante de uma situação de discriminação por opinião política, uma prática vetada pela nossa constituição pelo princípio da isonomia. Mas será que a discriminação política é de fato algo a ser evitada? Quais os reais benefícios e malefícios causados?

Segundo o dicionário, discriminar é o ato de indicar de modo preciso. Consiste em identificar as diferenças a partir de algum critério específico. Desde os registros iniciais sobre a humanidade, é possível encontrar um comportamento tribal e de clã, também observável nos animais irracionais, motivado inicialmente pela manutenção da sobrevivência. Sim a discriminação é instintiva, puro instinto. O que precisa ser questionado são os limites e excessos deste instinto.

Uma das coisas mais espontâneas que fazemos é categorizar. E fazemos isso por que o cérebro não dá conta de processar todas as informações existentes em um ambiente, e por isso ele costuma utilizar atalhos para processar as informações. Categorizar coisas otimiza o nosso tempo, a atenção, e nos torna mais preparados para lidar com as mudanças. Mas categorizar também pode nos levar a erros, principalmente quando categorizamos pessoas. A história da humanidade nos prova os grandes perigos da discriminação racial, religiosa, gênero, e política, seja a história da Europa como a recente história do Brasil.

Ora, o ato de categorizar implica justamente em buscar similaridades e diferenças, ou seja, discriminar. A convenção 111 da OIT (Organização Internacional do Trabalho) discorre sobre a discriminação no ambiente de trabalho. A discriminação de pessoas por cor, gênero, raça, religião e opinião política são vetadas. Discriminar é usar uma destas diferenças para inferiorizar alguém ou influenciar no acesso ao emprego e condições decentes de trabalho.

Desde o ingresso na escola estamos em contato com a discriminação, onde os alunos que demonstram domínio em determinados temas, recebem notas que os diferenciam dos demais que não possuem o mesmo domínio. Os exames de concursos públicos também. Ali a demonstração de conhecimento é o critério discriminatório para escolha do melhor candidato. O que dizer então sobre os esportes onde prevalece a máxima de “Honra ao mérito”?

O próprio processo seletivo é um processo para identificar e diferenciar os candidatos, a partir de competências e comportamentos, buscando o candidato mais apto para o exercício do cargo. Segundo o conceito de justiça Platônico, a justiça neste caso implica em exatamente dar a “vaga” para o mais qualificado, sendo a injustiça o seu contrário: dar a oportunidade para o menos qualificado, em detrimento do mais qualificado.  Mas torna-se imperativo ressaltar que o cenário social e seus desafios éticos, são naturalmente distintos dos desafios éticos do cenário corporativo, sendo a principal diferença o motivo de sua existência. A falha nesta análise conduz o pensador a comparar como iguais coisas diferentes. Nas organizações de trabalho, a produtividade é o objeto principal do contrato celebrado entre as partes envolvidas, portanto há de se avaliar as condições de dignidade e justiça que viabilize a produtividade ética. Retirar a produtividade como foco das relações de trabalho, descaracteriza a relação e faz o contrato de trabalho perder o seu objeto.

Voltando ao caso concreto, Imagine que o empresário simplesmente exponha o modelo de meritocracia adotado pela empresa aos candidatos. Por que um candidato, cuja ideologia seja de base comunista e/ou socialista iria querer ingressar numa empresa cujo todo sistema remuneratório está baseado em meritocracia[i]?

No caso acima, as respostas possíveis que encontrei para esta pergunta: por necessidade de trabalho; por necessidade de dinheiro; para tentar mudar a empresa convencendo os seus dirigentes de que a meritocracia fomenta a desigualdade; por não existir na região nenhuma outra vaga de emprego.

Mas quem será beneficiado com uma relação, cujas culturas do colaborador e da organização não sejam convergentes? No caso concreto, nenhuma das partes será beneficiada cumprindo o princípio da isonomia. Ora, a realidade nos evidencia que uma cultura homogênea é mais prejudicial do que benéfica. As divergências culturais podem (e geralmente são) saudáveis para as organizações. Mas quando a divergência envolvem critérios para remuneração e reconhecimento, aí a convivência e a produtividade ficam seriamente comprometidas.

Há de se haver o mínimo de afinidade entre colaborador e cultura da organização para viabilizar a produtividade. Há de refletir sobre o real benefício da discriminação, critérios para discriminar, ônus e bônus envolvidos, sendo certo de que a dignidade humana deve estar acima de qualquer relação econômica produtiva, mas tendo a maturidade para reconhecer também o folclore criado por muita gente que insiste em não compreender o cerne da questão.

 

[i] E por meritocracia, entendemos como um modelo em que se progride socialmente e economicamente com base nas qualidades pessoais. E a remuneração e bonificação estão diretamente atreladas ao mérito pessoal. É o poder do mérito, poder este já discutido na filosofia judaico cristã dentro do contexto da salvação, e associado ao mundo corporativo pela primeira vez no livro “Rise of the Meritocracy” do sociólogo e político britânico Michael Young. Cabe registrar, que a principal crítica à meritocracia consiste no argumento de que a premiação é baseada na desigualdade, perpetuando e acentuando as desigualdades, podendo criar um sistema separatista e viciado. Mas abordaremos a fundo este tema em outros artigos e vídeos.

Prof. Robson Vitorino é diretor executivo da Maxta, escritor, professor e palestrante. É autor dos livros “Delegação de Tarefas e Empowerment” e co-autor do livro “Reflexões de um Estrategista”. É professor de pós-graduação e MBA no IBMEC .

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