Se você chegou aqui neste artigo é porque já assistiu, está assistindo ou pretende assistir a série espanhola “La Casa de Papel” produzida pela Netflix, que vem tendo uma boa repercussão no Brasil. A trama aborda oito ladrões se unem para planejar um assalto bem peculiar, eles entram na Casa da Moeda da Espanha para fabricar o próprio dinheiro. Cada bandido tem o apelido de uma cidade do mundo e o líder é chamado de Professor, que fica coordenando toda a ação de fora da casa da moeda. E fique tranquilo que spoiler aqui não tem vez!

Ao tomar conta do assalto, a polícia liderada pela investigadora Raquel, começa então a se organizar em busca de meios para desarticular o plano de roubo e sequestro, já que os assaltantes estão mantendo reféns. Analisando a história das personagens, compartilho com você alguns pontos em comuns entre elas:

 1. Propósito ou objetivo de vida

     O que é que existe e não tem nenhuma utilidade? Desde o Aristotelismo, há pensadores que defendem que tudo que tem vida tem um propósito de existir. Sendo esta afirmativa verdadeira, descobrir o propósito da vida torna-se missão primordial para não se desperdiçar uma vida inteira. Por outro lado, crer que toda vida tem um propósito, implica diretamente em crer em uma ou mais divindades. Afinal, quem é que define o propósito de vida das coisas e das pessoas?

A partir da filosofia existencialista, pensadores como Kierkeggard e Nietzsche, defendiam que o indivíduo é o único responsável em dar significado a própria existência, e vivê-la de maneira sincera e verdadeira. Na série La Casa de Papel, é possível ver as duas correntes de pensamentos acima apontadas. De um lado, Raquel, uma investigadora, ao que tudo indica, levando uma vida infeliz, acumulando mais frustrações do que satisfações. Em relação ao seu trabalho, pode-se dizer que Raquel, ou não entendeu o seu propósito de vida, ou realizou uma escolha ruim, ou simplesmente está cumprindo o seu propósito sem vincular a realização do propósito com a felicidade e plenitude, ao contrário do que Aristóteles sugere (eudaimonia como a felicidade por meio de uma vida plena). Aristóteles diria para Raquel “Temos evidências de que você não nasceu para ser policial, veja como estás infeliz. Saia, enquanto é tempo, e descubra aquilo que nasceu para fazer. Saberás que descobriu quando verdadeiramente fores feliz”. Já Nietzsche diria “Raquel, escolha o trabalho que quiser, viva-o intensamente, sendo certo de que terás decepções, erros e stress. A vida verdadeira é um mix de ônus e bônus, se for só felicidade, desconfie, pois pode ser que esteja vivendo uma mentira.”

Vemos nesta série todos as demais personagens ou buscando viver o seu propósito ou tomando a direção da própria vida. Alguns de maneira mais hedonista, outros mais realistas e outros mais românticos. Tanto os policiais como os bandidos possuem um ponto de convergência de interesses: o crime. Sem o crime, seja ele real ou potencial, a polícia perde a sua utilidade. E o crime só existe por conta da existência dos bandidos e das leis. Portanto, a existência da polícia só é possível devida existência dos bandidos, e estes últimos só existem porque existem leis. Os policiais cumprem o seu propósito quando prendem os bandidos, cumprem a lei e protegem os cidadãos de bem, promovendo o bem estar público, e trazendo para si elevada satisfação. Os bandidos não encaram como seu propósito o ato de realizar assaltos e ações criminais, mas necessariamente em encontrar meios alternativos para obter aquilo que desejam. E quando conseguem, alcançam elevada satisfação e felicidade. Necessariamente, ou policiais ou bandidos estarão felizes, nunca simultaneamente, pois a felicidade de um implica necessariamente na infelicidade do outro.

 2. Esperança, Medo e Motivação

 Segundo Baruch Spinoza, a esperança é a antecipação da alegria, e se correlaciona diretamente com o medo, e com a insatisfação com o presente. Pois a plena realização com o presente cria apego ao momento, enquanto a insatisfação com o presente, motiva o desapego do presente para se apegar a um futuro possível e desejável.

“Esperança é uma alegria instável, surgida da ideia de algo futuro ou passado de cuja realização temos dúvida. Medo é uma tristeza instável, surgida da ideia de algo futuro ou passado de cuja realização temos dúvida. Logo, não há esperança sem medo, nem medo sem esperança. Quem se apega à esperança imagina algo que exclui a existência de algo futuro, e assim se entristece; portanto tem medo. Ao contrário, quem tem medo também imagina algo que exclui a existência dessa coisa, e assim se alegra; portanto tem esperança.” (Baruch Espinosa. Ética III definição dos afetos 12 e 13)

Nesta perspectiva, é possível afirmar que há dois perfis de personagem: aqueles que não estão felizes com o presente e são motivados pela esperança de um futuro desejável e possível, como por exemplo, os bandidos do seriado que pensam no que fazer com o dinheiro que conseguirem com a ação. Ou os policiais que estão debaixo de muito stress e imaginam o que irão fazer quando esta operação policial terminar. Para estes, o significado de Happy Hour faz todo sentido, pois significa que a hora feliz é sempre aquela depois que o trabalho acaba. A motivação de agir e corres risco é a esperança de um futuro muito melhor do que o presente, e ao mesmo tempo o medo de que o presente se estenda e dure muito. Dá para ver nitidamente este perfil nas personagens de Rio e Tóquio. Estes geralmente empreendem mais força e energia para alterar o status quo.

No outro perfil, estão as personagens que estão se alegrando com o momento, o foco está no agora e não no resultado. Já parou para refletir sobre qual é a verdadeira motivação do Professor e do personagem Berlim? É provável que a motivação seja justamente viver o que estão vivendo, no presente, deixando de ser “marginais” para serem protagonistas, estarem em evidência, serem aclamados pela opinião pública, e notadamente se posicionarem como mais inteligentes do que a polícia. Se esta for a verdadeira motivação destas personagens, o esforço será todo voltado para que o assalto à Casa da Moeda dure o máximo possível. E quando acabar, já iniciarem o planejamento do próximo. Neste perfil, o medo está em justamente perde a felicidade e a satisfação do momento, sendo também um fenômeno motivacional.

 3. Frustração e Improviso

    Outro ponto comum entre as personagens é o fato de terem que lidar com o imprevisto. De um lado, o grupo de assaltantes liderados por um mentor com grande capacidade de pensamento e previsibilidade dos possíveis desdobramentos que ação poderia tomar. De outro lado, Raquel e a sua equipe com uma sólida experiência em casos de assaltos a banco e sequestros. Entretanto, o que podemos perceber é que embora haja muito preparo das partes, o novo sempre vem, causando estranheza e frustração para aqueles que são motivados pelo previsível, e alegria para aqueles que facilmente se entediam.

Por mais que se esteja preparado e que se faça planos, os imprevistos sempre acontecem. A diferença está na forma de lidar com os imprevistos, já que eles são inevitáveis. É possível perceber as personagens mais jovens como Rio, Tóquio e Nairóbi e Denver, como ficam frustrados e, consequentemente desestabilizados quando algo foge ao planejado. Já as personagens com mais idade como Berlim, Helsinque, Olso e Moscou, liam melhor com os imprevistos. Neste caso, as personagens mais novas, representam as pessoas mais idealistas, que projetam um futuro e ficam obcecadas em torná-lo realidade, tendo sérias dificuldades em lidar com os imprevistos. E as personagens com mais idade, representam as pessoas mais realistas, que aceitam melhor as adversidades, sejam por entenderem que é parte integrante da própria existência, ou como sendo parte do destino ou como parte do plano de Deus. Para estes últimos, as frustrações são amenizadas pela crença de que as adversidades geram crescimento e trazem sabedoria.

Para uns, os imprevistos causam frustração e geram uma paralisia temporária, pois gasta-se tempo e energia para se lamentar. Para os outros, o imprevisto é a oportunidade de treinar a virtude do improviso.

 4. Temporalidade

O tempo é uma variável curiosa nesta série. Enquanto os assaltantes precisam de tempo para conseguir imprimir a maio quantia de dinheiro possível, a polícia é pressionada pelo governo e opinião pública para resolver logo este problema. Mais tempo para os assaltantes é menos tempo para a polícia, e vice-versa. Enquanto alguns dos assaltantes já percebem que boa parte de vida já se foi, e, portanto não podem mais perder tempo, outros estão nos chamados “anos dourados”, com muita esperança que possuem muito tempo de via, embora estejam correndo alto risco de morte.

Enquanto o poeta Renato Russo recomendava amar (e viver) como se não houvesse amanhã, a maioria das pessoas vive como não houvesse o fim para esta vida. Ignorar a morte não é uma opção. Pode-se ter uma fé na vida após a morte, mas não é razoável ignorar a morte. É fato, temos grande dificuldade em lidar com a temporalidade, ou seja, a finitude das coisas. Raquel não tem tempo a perder, precisa amar e sentir-se amada, e isso é urgente, ao ponto de acontecer em paralelo a um momento crítico de sua carreira policial. O mesmo com Rio e Tóquio.

Somos aficionados em projetar o nosso controle sobre o tempo. Quantos filmes, músicas e documentários sobre o assunto. E pagando o gancho da Netflix, sugiro o documentário brasileiro sobre “Quanto tempo o tempo tem”, com a direção de Adriana L. Dutra, que fez um trabalho de altíssima qualidade. E uma das principais motivações do ser humano em desmistificar o tempo e controlá-lo, é a acabar com a morte, ou seja, descobrir a eternidade. Este tem sido um dos objetivos de trabalho da ideologia Transumanista (H+), que consiste num movimento intelectual que visa transformara condição humana PR meio de tecnologias, buscando ampliar as capacidades intelectuais, físicas e biológicas.

Não podemos negar que a ciência e a tecnologia já alterou significativamente a forma como lidamos com o tempo, em muitos países a longevidade vem aumentando, as causas de mortes vêm se alterando, e se trouxe benefícios ou não, aí deixo para você amigo leitor para fazer este juízo de valor. A eternidade para esta vida aqui é uma bênção ou maldição? Para aqueles que percebem valor no presente, e que possuem uma vida boa, a eternidade é a esperança de prolongar esses momentos bons. Para aqueles que sofrem, a eternidade é uma maldição, pois prolonga o estado de sofrimento.

Mesmo com os avanços da neurociência, da medicina e da tecnologia, os humanos continuam sendo temporais, e esta vida continua sendo finita e frágil. O desenvolvimento do intelecto pode nos ajudar a pensar melhor a nossa existência e a decidir melhor o que fazer com o tempo que temos ou que nos foi concedido. Façamos isto, sem esquecer a fragilidade da vida e das coisas, como as personagens protagonistas do seriado, que embora haja um planejamento, a fragilidade é notória para quem assiste. E esta fragilidade é uma característica da nossa existência. Uma vida tão frágil quanto um papel.

O seriado “La Casa de Papel” nos permite refletir não somente sobre a fragilidade da vida, mas também a buscar a encontrar o nosso papel nesta vida que consiste um emaranhado de histórias seriadas.

Prof. Robson Vitorino é diretor executivo da Maxta, escritor, professor e palestrante. É autor dos livros “Delegação de Tarefas e Empowerment” e co-autor do livro “Reflexões de um Estrategista”. É professor de pós-graduação e MBA no IBMEC .

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