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O Líder faz sombra

57 Years Apart- A Boy And a Man Talk About Life

Certa vez, um velho sábio e líder religioso do século VIII, habitante de uma região no interior da França viveu algo que iria mudar a sua vida para sempre. Vivia sozinho, contra a sua vontade, pois a solidão era o seu pior castigo. O seu sonho era criar uma comunidade onde as pessoas carentes pudessem morar, e fossem instruídas a dominar as técnicas do cultivo, a fim de se criar uma cultura de subsistência. E, desta forma, ele conseguiria suprir as necessidades básicas daquelas pessoas, podendo então, a posteriori, cuidar da alma e do espírito. Entretanto, o sonho o acompanhava há anos, e não tendo recursos financeiros nunca tinha conseguido sequer executar uma vírgula deste projeto. Certa vez, em sua caminhada, ele encontra um rapaz sentado à beira do caminho, chorando muito. O sábio chega perto dele, o consola, e pergunta porque ele está sofrendo. O jovem responde:

Eu não sei porque estou vivo. Não sei qual é o sentido da vida. Em meu peito existe um vazio tão grande, que já não sei mais se consigo viver assim.

O sábio então diz:

A vida é movida por objetivos e sonhos. Qual é o seu sonho?

­O jovem, com a sua mente e língua afiados dispara:

É assim que você vive? Quais sonhos você realizou?

O sábio então aponta para uma pequena árvore e mostra ao jovem que, antes de dar frutos, a árvore firma a raiz e as folhas crescem, gerando sombra. Antes do fruto, é preciso gerar sombra, e a sombra não é um benefício para a árvore em si mesma, mas para os animais que desfrutam dela. E então o sábio diz:

 –  Sabe meu jovem, a vida de alguém só pode ter sentido se ela compreender como servir ao próximo. Primeiro a sombra, depois os frutos.

O jovem levanta a cabeça, enxuga as lágrimas, levanta-se rapidamente e abraça forte o pequeno velho sábio, e sai correndo. O jovem tinha compreendido que deveria criar um projeto para cuidar dos idosos que viviam sozinhos e doentes no vilarejo real, assim traria um pouco de alegria a eles e aproveitaria para aprender mais homens e mulheres com uma vasta experiência de vida.

Dois dias depois, muitos cavaleiros chegaram na floresta e cercaram a antiga cabana do velho sábio, e o levaram ao palácio real. Chegando lá, ainda um pouco assustado, ele vê o Rei, a Rainha e o jovem príncipe, aquele rapaz que há alguns dias ele aconselhara, que logo dispara:

– Sim meu Pai, é ele mesmo!

O Rei diz que aquele que restaurou a alegria de seu filho, expulsando a grande tristeza, deveria dizer o que precisava, e ele o recompensaria. O que quisesse. O sábio pensou alguns segundos e disse:

Majestade, eu gostaria de saber onde há mais jovens que estejam como estava o príncipe. Deixe estes jovens comigo um tempo, e então serei recompensado.

 

Algumas lições importantes para a liderança podem ser extraídas desta pequena história:

1ª O propósito e vida não podem ser algo tão pequeno como o dinheiro, os seres humanos precisam de propósitos que façam a sua existência valer à pena.

O sábio líder religioso tinha como sonho criar uma comunidade em que pudesse cuidar das pessoas, mas sentia-se limitado pela falta de recursos. Na falta de recursos para realizar o projeto, a solidão era a sua companhia. O jovem representa a oportunidade de viver o seu propósito como sábio e conselheiro, despertando nele o seu senso de utilidade.

A liderança não deve ser movida pelo ganho financeiro. A liderança só faz sentido porque existem pessoas a serem lideradas, precisando de orientação e desenvolvimento. Na sociedade capitalista, o retorno financeiro do trabalho é um fator importante e fundamental para a manutenção da vida pós-moderna. Entretanto, o maior erro que um líder pode cometer é confundir o dinheiro com propósito. Liderar é ter folhas capazes de fazer sombra. O dinheiro é fruto, é consequência.

2ª A vida boa necessariamente implica em encontrar a complementariedade no outro.  A sabedoria terá pouco valor se não houver com quem compartilhar. De que vale a genialidade do maestro se não há orquestra para reger e nem público para ouvi-lo? De que vale todo o conhecimento do médico se não há pacientes para serem tratados? A solidão estava matando o velho sábio. Encontrar o jovem ressuscitou nele a alegria de ser útil ao próximo, e ajudar ao próximo a encontrar o seu caminho. A ausência do outro o impede de cumprir o seu propósito.

3ª O valor está nas pessoas e não nos recursos. Quando o Rei pergunta como ele gostaria de ser recompensado, o sábio pensa e pergunta onde existem mais jovens como o príncipe. Alguns poderiam pensar em pedir os recursos financeiros para construir o projeto, ou ainda, pedir ao Rei que construísse uma comunidade do jeito que ele sonhara. Mas tais soluções não teriam tanto significado para ele se não fosse ele a montar uma equipe e executar o projeto.

Com o dinheiro, mas sem a equipe, ele corria o risco de não realizar nada e viver sozinho novamente. A maior lição desta história está no aprendizado do sábio, pois ele entendeu que orientando jovens que se sentiam perdidos, ele poderia cuidar da alma e do espírito daqueles jovens, tendo uma equipe jovem e bem instruída para executar o projeto dos seus sonhos. Ganho compartilhado. Valor agregado para as partes!

Mas o que levaria o velho sábio a acreditar que os jovens iriam acreditar e patrocinar o tal projeto da comunidade dele? O fato de que as pessoas gostam de seguir líderes que as façam sentir mais vivas, úteis e, portanto, valorizadas. Pois qual é o valor da vida inútil?

A liderança, aquela essencial, está mais próxima da história destes dois personagens. O velho sábio despertou no jovem a sua liderança, assim como o jovem despertou nele. No final das contas, a liderança do velho sábio e do jovem, diz respeito a fazer sombra assim como a árvore. Implica em melhorar a vida do próximo, despertando neles a clareza de seu papel e de sua utilidade, permitindo-os se sentirem verdadeiramente especiais e úteis.

Robson Vitorino, é escritor, sócio diretor da Maxta Consultoria e Treinamento, professor do IBMEC, palestrante e consultor na área de Gestão de Pessoas e Liderança. 

 * O presente artigo é parte integrante da coleção de artigos do autor, devidamente registrado, não podendo ser reproduzido sem autorização prévia. 

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