Era um feriado, e estava tentando descansar e desligar um pouco das preocupações pertinentes à empresa e aos projetos. Mas é difícil desviar o foco mental. O preço a ser pago para ter a liberdade de ser dono do próprio negócio, pelo menos para mim, é um preço alto. Conforme o Prof. Zygmunt Bauman dizia, raramente a liberdade e a segurança andarão de mãos dadas nesta vida. Recebi uma mensagem de um amigo de infância que mora em outra cidade. Ele estava em minha cidade e veio visitar o seu pai que estava adoentado e numa situação de saúde bem delicada. Se por um lado eu estava ali, partilhando de momentos de descanso com a minha querida esposa, por outro lado, sentia a falta da companhia de meus amigos. Mas ele precisava de mim, ainda mais diante destas circunstâncias. Precisava de alguém para boa conversa e aliviar um pouco o peso de ver o seu querido pai muito debilitado, e não poder fazer muita coisa. Conseguimos marcar de encontrar e tivemos um momento juntos. São aqueles momentos de qualidade, onde tem muita história envolvida, fruto de mais de 25 anos de amizade.

Esses momentos são revigorantes para a alma. Ali nos alegramos com as conquistas um do outro, lamentamos as perdas e criticamos um ao outro com a honestidade de quem deseja ver o outro bem. Quando isso acontece, sempre lamento a despedida. O retorno para a singularidade da vida, aquela parte que acontece na primeira pessoa. A solidão é parte inerente da vida. Há momentos e experiências que só podem ser vividas individualmente. E um destes preciosos momentos, é a reflexão, que consiste no ato de meditar, pensar e analisar sobre determinado assunto, problema ou sentimento. Segundo a filosofia, implica no cuidado que se tem em relação ao próprio entendimento[i]. Algo nobre é o tempo dedicado para a reflexão. Em tempos de hiperconectividade, ter um tempo a sós com si mesmo para refletir, é quase ostentação. Mas há outro lado, o da necessidade de compartilhar, testar ideias, ouvir o outro e ser ouvido. Talvez este seja um grande paradoxo de nossa época, estar repletos de tecnologias sociais e sofrermos de solidão.

Atualmente, mais de 40% dos adultos na América do Norte, sentem-se sozinhos, e pesquisas sugerem que a cifra real é provavelmente bem maior. Além disso, o número de pessoas que relatam ter um confidente próximo tem diminuído nas últimas décadas. Como professor, consultor e coach, vi e vejo muitos alunos inventando dúvidas apenas para conversar um pouco, pessoas contratando um programa de Coaching interessadas exclusivamente em conversar e ser ouvido, sem ser julgado. Gente que precisa partilhar com alguém os seus medos, angústias e fracassos, sem serecrucificada.

Segundo o Dr. Vivek H. Murthy “Da perspectiva biológica, evoluímos para sermos criaturas sociais. Há muito tempo nossa capacidade de construir vínculos de confiança e cooperação ajudou-nos a aumentar o fornecimento estável de alimentos e a proteção consistente contra predadores. Ao longo de milhares de anos, o valor da conexão social foi assimilado pelo nosso sistema nervoso, de modo que a ausência de tal força protetora cria um estado de estresse no corpo. A solidão causa estresse, e o estresse prolongado ou crônico leva a níveis frequentes e elevados de um hormônio-chave do estresse, o cortisol, e de inflamação no corpo. Isso, por sua vez, prejudica os vasos sanguíneos e outros tecidos, aumentando o risco de doenças cardíacas, diabetes, doenças das articulações, depressão, obesidade e morte prematura. O estresse crônico pode também sequestrar o córtex pré-frontal do cérebro, que rege a tomada de decisão, o planejamento, a regulação emocional, a análise e o pensamento abstrato.”[ii]

A solidão não é ruim apenas para a saúde. É ruim também para os negócios. Pesquisadores da Gallup descobriram que ter fortes conexões sociais no trabalho faz com que os funcionários sejam mais propensos a se envolver com o emprego e a produzir um trabalho de melhor qualidade, e menos propensos a adoecer ou se ferir. Sem fortes conexões sociais, esses ganhos se transformam em perdas. Indiretamente, a conexão aumenta a autoestima e a eficácia, além de direcionar nossa experiência para as emoções positivas — o que protege o indivíduo em situações estressantes e tem efeitos positivos sobre a saúde geral. De fato, estudos descobriram que empresas cujos funcionários acham que seu emprego é estressante têm despesas de cuidados de saúde consideravelmente maiores do que suas congêneres com menor nível de estresse.

Sim, diversas organizações já descobriram isso, e vem investindo em ambientes mais descontraídos, com quadras poliesportivas, academias e áreas de lazer, a fim de criarem laços sociais mais fortes, a conseguirem cuidar de sua saúde mental e física, no próprio ambiente de trabalho. Fatores que implicam intensamente em pesquisas sobre os melhores lugares para se trabalhar.Sem dúvidas, desde a revolução industrial até os nossos dias, um progresso fantástico no que tange ao equilíbrio entre trabalho e dignidade humana. Mas, algumas variáveis estão sendo ignoradas, como as relações de poder e a natureza recompensatória do trabalho remunerado.

A consideração destas variáveis para o contexto das relações sociais torna-se imperativa, pois influenciam diretamente na qualidade ao quais essas relações entre pessoas do trabalho acontecem. As relações de trabalho nunca serão suficientes para dar conta das necessidades sociais do indivíduo. O envolvimento de poder e recompensas, sejam sociais e/ou financeiras, já altera substancialmente a espontaneidade da relação. As partes envolvidas naturalmente são mais precavidas sobre o que dizer e como agir, há muita coisa em jogo. Basta o amigo leitor comparar a sua relação com um superior hierárquico de seu trabalho e a relação com alguém que mora com você. Certamente, o nível de honestidade e transparência na relação será diferente. A honestidade e a transparência interferem diretamente na confiança. E quanto menor a confiança, mais fraco é o laço social que mantém viva aquela relação. O inverso também é verdadeiro. Só que a confiança, a honestidade e a transparência surgem da convivência onde o “se importar com o outro” está acima do “o que eu ganho com isso?”, algo cada vez mai raro nas organizações. Na verdade, algo até incompatível com as relações de trabalho, podendo ser interpretado como parcialidade, pessoalidade, etc.

Mas, retomando o significado de “Refletir” a física define como o ato de causar reflexão, fazer voltar em outra direção[iii]. Parte não menos importante do pensamento é a busca pelo conhecimento. A reflexão não tem valor em si mesmo, mas sim a depender os seus resultados. E por vezes, a reflexão sugere construções que carecem ser testadas. Para isso, precisamos ter com quem dialogar, a aqui entra o outro lado da história: a dialética. Consiste no método de diálogo criado pelos gregos antigos, atribuído a Zenão de Eleia, por volta de 450-430 A.C. Este método é caracterizado pela contraposição de ideias que levam a outras ideias. Uma tese é confrontada por uma antítese, que pode conduzir para uma síntese ou uma nova tese. Mas como inserir os debates nas relações de trabalho? Mesmo quando a pauta é relacionada à atividade laboral, os debates e contrapontos já são raros, quanto mais “gastar” tempo com assuntos pessoais.

Adoecemos porque tentamos suprir necessidades de relacionamentos sociais, por relacionamentos laborais. Adoecemos porque não sabemos como refletir e voltar em outra direção, porque já não temos contato com a pessoa que voltou em outra direção, porque ela não trabalha conosco. A solidão é o indicador da falência de uma área essencial para a vida: a capacidade de construir relações que sejam mais significativas do que a sua relação com o trabalho.

Esse tempo curto com o meu amigo, foi fundamental para retornar ao escritório depois de um feriado, e conseguir visualizar caminhos e tomar decisões que certamente sozinho eu não conseguiria, pois a minha reflexão não era suficiente para enxergar o que o meu amigo fez refletir em nossa conversa. Ali tem história envolvida, tem respeito, tem honestidade para discordar, responsabilidade ao aconselhar, e a preocupação que transcende a pergunta “o que eu irei ganhar com isso”.

As organizações precisam repensar a maneira ao qual concedem ou confiscam o tempo que seria dedicado às relações essenciais à vida humana, sem aos quais os encontros não acontecem, amores não acontecem, as gargalhadas não acontecem, os grandes profissionais não nascem, muito menos as grandes ideias.

Prof. Robson Vitorino é diretor executivo da Maxta, escritor, professor e palestrante. É autor dos livros “Delegação de Tarefas e Empowerment” e co-autor do livro “Reflexões de um Estrategista”. É professor de pós-graduação e MBA no IBMEC .

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[i] Significado da palavra “Refletir” Dicionário Houaiss –  https://www.dicio.com.br

[ii] Vivek H. Murthy foi o 19º cirurgião geral dos Estados Unidos de 2014 a 2017. Como cirurgião geral, o doutor Murthy comandou o Corpo Comissionado de Serviços de Saúde Pública dos Estados Unidos, um serviço uniformizado com 6.600 escritórios de saúde pública que atende populações vulneráveis em 800 locais no país e no exterior. Durante seu mandato, ajudou a abordar questões críticas de saúde pública, como o surto de ebola, o vírus da zika, os baixos níveis de atividade física e a explosão do uso de cigarros eletrônicos entre os jovens.

[iii] Pesquisa da palavra “Refletir” http://michaelis.uol.com.br

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