Confesso que me divirto muito vendo algumas pessoas na praia. Especificamente aquelas que insistem em banhar-se com água pela canela. A tarefa torna-se mais complexa quando as ondas estão quebrando na areia, no raso. Eu sei, não deveria achar graça nisso, mas eu acho sim, ao ponto de nem conseguir disfarçar o riso.

Os avanços tecnológicos vêm alterando significativamente a forma a qual os seres humanos lidam com o tempo. Se por um lado a tecnologia nos poupa tempo, por meio de algoritmos ultraprocessados e inteligência artificial, por outro, parece que a nossa sociedade vive a angústia da escassez de tempo.

Com tanta informação disponível, uma geração vive a angústia de querer saber sobre “tudo”, já que “tudo” foi catalogado pelo Google. A concepção Lacaniana de relação com o tempo parece ter sido brutalmente adulterada, pois o ver, compreender e concluir saíram de cena para dar lugar ao ver e concluir. Muito se visualiza e se conclui, amputando a etapa essencial do “compreender”. E ainda, ao expor determinada linha de pensamento, ouvimos rotineiramente em sala de aula: Para que serve isso? E se a resposta demorar, tal questionamento potencialmente válido, é abandonado por outro tema mais interessante, com utilidade óbvia e imediata.

A busca pela utilidade vem suprimindo o interesse em compreender a essência das coisas. Sim, a busca pela essência é algo que demora muito, e que possivelmente quando o sujeito a descobrir, certamente tal assunto não será mais uma postagem em alta nas redes sociais. Esta relação com o tempo vem produzindo uma tempestade de opiniões infundadas e ilógicas, emitidas por gente com um potencial fantástico de ser, de fato, seres pensantes, mas que evitam tal prática.

Ora, ignorar o “O quê” e a busca pela essência, partindo para a conclusão do “Como” e “Qual é a utilidade disso?”, acaba por atrofiar justamente a capacidade de vislumbrar o novo. Se processo educacional insistir em enfatizar o “como”, continuaremos despejando no mercado os especialistas em “cumprir ordens”, reféns de alguém que pense.

E ainda há o outro lado, aquele que habitam os que “Sabem de tudo”. Curiosamente, as salas de aula dos cursos de MBA agremiam alguns destes. Um dia em 1995, um homem grande e pesado de meia-idade roubou dois bancos de Pittsburgh em plena luz do dia. Ele não usava uma máscara nem qualquer tipo de disfarce. E sorria para as câmeras de segurança antes de sair de cada banco. Naquela noite, a polícia prendeu o surpreso McArthur Wheeler. Quando lhe mostraram as imagens de segurança, Wheeler olhou incrédulo. “Mas eu usei o suco”, murmurou. Aparentemente, Wheeler pensava que esfregar suco de limão em sua pele o tornaria invisível para as câmeras. Afinal, suco de limão é usado como tinta invisível, portanto, enquanto não se aproximasse de uma fonte de calor, ele deveria ter ficado completamente invisível. A polícia concluiu que Wheeler não era louco nem estava drogado – apenas incrivelmente equivocado.

Para investigar esse fenômeno em laboratório, Dunning e Kruger, professores da Universidade de Cornell, propuseram alguns experimentos. Em dezembro de 1999 eles publicaram no Journal of Personality and Social Psychology o resultado dos experimentos com a teoria do Efeito Dunning Kruger. Trata-se do fenômeno ao qual indivíduos que possuem pouco conhecimento sobre um assunto acreditam saber mais que outros mais bem preparados, fazendo com que tomem decisões erradas e cheguem a resultados indevidos; é a sua incompetência que os restringe da habilidade de reconhecer os próprios erros. Estas pessoas sofrem de superioridade ilusória.

De um lado a superficialidade, de outro uma crença equivocada do saber.

A palavra “negócio” tem a sua origem no latim “Negotium”, ‘atividades de compra e venda’, o que literalmente quer dizer ‘ausência de folga’ – da combinação de ‘NEC’, advérbio de negação, mais ‘OTIUM’, ‘folga, ócio’. Mas em meio à tantos negócios virtuais e sociais, está em escassez justamente um negócio singular e pessoal: A reflexão e a organização do pensamento. Não, não adianta, não dá para pensar em grupo, pois o pensamento é uma virtude necessariamente individual.

Talvez a história do grande Sócrates explique isso, pois ao tentar ensinar os jovens de sua época a pensarem por si só, foi preso e condenado à morte. Mas talvez, pior seja ser condenado à morte cerebral e estar sempre condicionado ao pensamento de alguém.

Sugiro uma pausa na mente frenética em busca do conhecimento superficial e pré-pronto. Uma pausa na mente angustiada pela geração de recursos, por vezes, na tentativa de ser autossuficiente. Uma pausa na mente solitária em busca de um amor. Mas um play a fim de liberar a sua mente para os detalhes que certamente estão presentes na sua vida e que talvez você ainda não tenha tido a atenção de apreciar. As histórias de vida mais interessantes, são repletas de pontos e vírgulas, porque as pausas são necessárias. Nestes dias de excesso de informação, criar um programa de pesquisa pode ser muito interessante. Qual é o tema que lhe interessa e que você vem dedicando tempo para ver documentários, comprar livros, participar de seminários, selecionar melhor os seus filmes? E não precisa ser um único tema, mas a existência de um tema já lhe colocará numa posição mais confortável e honesta, afinal, terás mais fundamentos para qualificar o seu pensamento e suas opiniões. 

Ficar no raso é complicado. Implica em encher a roupa e a cabeça de areia. É ficar com as ondas quebrando a todo o momento em cima de si. Mais cedo ou mais tarde, vai aparecer um “guru” para explicar a dinâmica da praia…

Arrisque-se a entrar um mais fundo no mar do conhecimento. Permita-se mergulhar um pouco mais fundo sobre os temas que lhe fascinam, pois é a única forma de evitar ser contaminado pelo vírus do superficialismo e do efeito Dunning Kruger.

Prof. Robson Vitorino é diretor executivo da Maxta, escritor, professor e palestrante. É autor dos livros “Delegação de Tarefas e Empowerment” e co-autor do livro “Reflexões de um Estrategista”. É professor de pós-graduação e MBA no IBMEC .

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