Eu fiz um estágio numa grande companhia. Lembro-me muito bem que na gerência que eu estagiava, havia uma estagiária muito bonita, e que já estava lá antes de mim que chamarei de Sara. Eu presenciava diariamente gerentes de outros andares passando lá para dar bom dia para ela. Mas não se restringiam ao “Bom dia”, era necessário ir até lá, beijá-la, pedir para ficar de pé, dar uma voltinha, etc. E ao sair me dizer “Sorte trabalhar aqui hein?”. O programa de estágio durava 12 meses. Quando eu saí, ela continuava lá. Sara passou a usar a sua beleza para conseguir favores e usava saias curtas e decotes provocantes.

Já formado e ocupando o meu primeiro cargo de gerência, com 23 anos, eu trabalhava numa empresa de desenvolvimento de software. Veio trabalhar conosco o John (nome fictício), recém-chegado da Holanda, . Sempre bem arrumado, cabelo com gel, olhos verdes, ele era o “Brad Pitt” da empresa. Quando falava com alguma mulher, fosse casada ou não, os risos e comentários decorrentes do diálogo eram frequentes. Suspiros e gestos de abano simulando calor eram recorrentes. O assunto ficou mais sério quando a esposa dele foi encontrá-lo e o esperava na recepção da empresa. Todas as mulheres da empresa arrumaram um jeito de ir até a recepção para vê-la. O frisson ficou ainda maior quando descobriram que a esposa dele não estava dentro dos padrões estéticos exigidos.

A revista Veja publicou no mês de Janeiro/2018, uma matéria intitulada “Não senhores, não pode mais” que traz dados da consultoria Kurier Analytics. A consultoria fez um levantamento na base de dados do Conselho Nacional de Justiça, e identificou que no Brasil em 2013 tiveram 1530 ações judiciais de assédio sexual, e que em 2017, até junho, este número foi de 4057 ações. Um crescimento de 200% nos últimos três anos. A imprensa tanto nacional como estrangeira, semanalmente denuncia novos casos, desde o caso da estrela hollywoodiana Kevin Spacey até o caso de atores globais.   Historicamente, os casos mais frequentes são do assédio do homem com a mulher. Entretanto, com o aumento dos casos, houve um aumento também de assédios de natureza homossexual, e casos de mulheres assediando homens. Independente dos números, o fato é que temos um desafio ético nos relacionamentos, especificamente no ambiente de trabalho.

Elogiar a roupa e o perfume, fazer reuniões a sós com as portas fechadas, oferecer carona, dar presentes, almoçar a sós, são práticas que estão sendo evitadas e vetadas em muitas companhias.

A fim de atuar de forma preventiva, muitas empresas vem investindo na elaboração de um bom código de conduta, e treinamentos para conscientização sobre o que é o assédio sexual e moral. Mais do que saber o que é, conscientizar a equipe sobre como proceder em casos de assédio. Para isso, uma solução é criar um canal de denúncias e um comitê para exame e análise dos casos.

Mas há quem ache que o mundo ficou exageradamente chato. E que relacionar-se com o colega de trabalho tornou-se um risco tão alto de problemas sérios que é melhor ser individualista e trabalhar sozinho, sempre que possível. É fato que se levarmos para um extremo, a produtividade poderá ser inibida pelo medo de interpretações possível das interações de trabalho. Para estes casos, o respeito deve permear todas as relações, sejam ela de trabalho ou não. Tecer comentários de conotação sexual sobre um colega de trabalho, sempre foi e sempre será falta de respeito e a educação cabe em qualquer lugar.

Talvez o maior desafio seja o de entender o padrão da pequena ética, chamada de “etiqueta”. Sim, um conjunto de procedimentos para que a harmonia seja viável. Cortejar, elogiar, convidar para sair podem ser atitudes permitidas a depender do ambiente que se esteja. Não é eu não pode nada, mas no trabalho o foco é a produtividade, e todas as ações que deviam do foco devem ser evitadas. Por exemplo, num estádio de futebol, durante um clássico, não é razoável que se peça a uma pessoa que não grite, que não fique em pé. Assim como, não é razoável ficar gritando num hospital. Para cada ambiente há uma etiqueta para que a harmonia seja viável.

Precisamos sim cada vez mais pensar sobre as variáveis que estabilizam e desestabilizam esta harmonia no ambiente de trabalho e investir em palestras e treinamentos sobre o tema. Sendo indubitavelmente certo de que o respeito nunca saiu de moda, e de que o bom senso de cada um não serve de parâmetro ético para as condutas das empresas. É o desafio da convivência apesar de nós mesmos.

Conheça os treinamentos e palestras da Maxta sobre Ética e prevenção ao assédio moral e sexual.

Robson Vitorino é diretor executivo da Maxta, especialista em Gestão de Pessoas e Produtividade, professor de cursos de MBA, autor do livro “Reflexões de um Estrategista” pela Chiado Editora.

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