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As quatro chaves éticas para convivência no trabalho

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Um dia desses, estava na fila do caixa eletrônico numa loja de rua. O táxi parou, e desceu uma senhora com uns 70 anos. Ao descer, ela disse ao motorista “Me espere que eu vou pegar dinheiro…”. O motorista de táxi também era um senhor já de idade avançada, cabecinha branca. Ao perceber a fila, ela vai seguindo pela calçada, passa direto do caixa eletrônico e vira a esquina. Eu fiquei ali imaginando o que aquela senhora estava fazendo. O rapaz que estava à minha frente na fila, fez a sua operação no caixa eletrônico e voltando-se para mim sentenciou:

– Que senhora 171 hein? Dando calote no taxista!

Lamentavelmente eu concordei. Não satisfeito, ele foi até ao taxista para avisar que a senhora tinha dado um calote. Perguntou em quanto estava a corrida, e o taxista disse que em R$ 8,00. O rapaz, generoso, abriu a carteira e deixou R$ 10,00 para o motorista. Que ato nobre! Ainda existem pessoas boas e altruístas no mundo. Fiz a operação no caixa eletrônico e fui comer um pastel, na mesma esquina. Eis que para a minha surpresa vem voltando a senhora, só que agora carregando duas bolsas pesadas de compras de feira. Ela chega, para na esquina, suada e ofegante, e fica procurando o taxista, que influenciado pelo rapaz tinha ido embora. Eis que o mesmo taxista volta e para pegar a senhora, que aliviada é ajudada a colocar as sacolas de compras de feira no carro e seguir viagem.

Situações como esta acontecem todos os dias. Somos imediatos e precipitados em julgar o próximo. O ambiente de trabalho é um local que reúne pessoas de gêneros, gerações, religiões e sistemas morais diferentes, e a única certeza que temos é o desafio da convivência. Estamos no âmago da ética, cuja definição consiste no esforço humano para viabilizar a convivência da maneira mais harmônica e equilibrada possível. A ética é um atributo factível apenas aos humanos que possuem capacidade de escolha a partir de sua racionalidade. Os objetos e animais não podem ser julgados a partir da ética, pois só podem ser do jeito que são.

No estudo da ética moral, E. Kant desenvolve uma das mais belas ideologias do pensamento moral. Onde o ponto mais crítico é a intenção, ou seja, a inclinação de agir a partir de um sistema moral. O comportamento é a materialização da ação outrora decidida no sistema moral. A intenção é a causa e comportamento é o efeito. Portanto, o agir é fruto da percepção e julgamento moral. E você já parou para refletir, assim como na história acima descrita, como somos mal intencionados? E como as nossas intenções equivocadas influenciam comportamentos ruins? E ainda, como os comportamentos ruins atrapalham a produtividade?

Um dos maiores desafios da ética no trabalho é viabilizar a convivência justa e equilibrada que favoreça a produtividade e a dignidade humana. E um dos pontos críticos da ética é a tolerância. Ora, em termos gerais, a tolerância é a capacidade de suportar coisas, pessoas e situações que desaprovamos, mas que resolvemos não agir contra. Mas a situação é mais complicada do que aparenta, senão vejamos. Tolerar é conviver apesar da desaprovação moral. É a conduta contida, fruto de um esforço consciente para viabilizar a convivência. Geralmente, a tolerância é a conduta adotada quando se é minoria num ambiente que se deseja conviver. Este cenário é muito parecido com as organizações de trabalho, como por exemplo, “Na minha casa eu não admito isso, mas como preciso trabalhar tolero aqui na empresa”. No campo comportamental, este tipo de tolerância é sem dúvida benéfica, pois viabiliza um ambiente mais respeitoso. Entretanto, no campo da produção intelectual, da produtividade oriunda da dialética, da riqueza do debate, fica seriamente prejudicada. Profissionais com sistemas morais muito polarizados tendem a ter muitas dificuldades em se aceitarem ao ponto de discernirem de forma pura as ideias uns dos outros, desprovidas dos julgamentos morais da “pessoa”. Separar a ideia da pessoa é quase uma virtude de ficção. O desafio da tolerância é a capacidade de acomodar as diferenças morais ao ponto de se conseguir ouvir com respeito e atenção a essência do pensamento do outro. Conforme Evelyn Beatrice Hall parafraseando Voltaire, em 1906 “Não concordo com o que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-lo”.

A convicção é a certeza ou opinião firme a respeito de algo. Geralmente a pessoa convicta é rotulada de fundamentalista. O nosso sistema moral é o parâmetro para julgamentos e ações que praticamos. Tende a ser o gabarito. Qual o valor da convicção se a conduta não a seguir? O convicto possui sérias dificuldades em conviver com a hipocrisia, pois seus atos denunciam as suas convicções. A maior virtude do convicto também tende a ser o seu maior defeito, a dificuldade em rever as suas opiniões. A partir da convicção de ideias, como agir de forma tolerante? Eis o desafio.

Já o relativismo é o oposto.  É deixar levar-se por diferentes sopros doutrinários. É mudar de ideia sem pestanejar. O verdadeiro relativista argumenta que não há uma verdade absoluta, ou ainda, não apenas uma verdade, sendo fundamental a adoção de diversas vertentes do pensamento para compreender o todo. E ainda, atribuem ao relativismo o valor da diversidade cultural. Outra vertente do relativismo afirma que devemos tratar os julgamentos morais como se fossem estéticos. Um gosta de peixe e o outro não. Podem discordar e estarem os dois certos. Mas até que ponto o relativismo pode ser tolerado? Como relativizar temas como genocídios, escravidão, estupro e infanticídio?

A primeira chave para criar de um ambiente de trabalho eticamente produtivo passa necessariamente por estabelecer padrões éticos de conduta e comunicá-los claramente. A criação de uma norma de conduta não é um privilegio das grandes organizações, pelo contrário, as pequenas são muitos mis ágeis em produzi-lo e tem a chance de crescerem de forma mais ordenada de o fizerem desde o início. Toda casa tem um padrão ético que normatiza como os visitantes devem ali se comportar. É a “etiqueta”, ou seja, “a pequena ética”, apontando como deve ser o comportamento naquele ambiente para manter a harmonia. A área de compliance vem ganhando expressividade no cenário corporativo brasileiro, impulsionada pelos escândalos políticos envolvendo a relação com a iniciativa privada. Faz parte das boas práticas do compliance a criação de normas de conduta, ações preventivas, canais de denúncias, comissões para apuração de denúncias e adoção de medidas corretivas, etc.

A segunda chave é a personificação do exemplo. Temos grande carência de exemplos e precisamos de pessoas que sejam referenciais de conduta. Sempre quando abordo este tópico aparece logo alguém pensa “Mas somos humanos e imperfeitos, e eu não sou e nem quero ser exemplo para ninguém”. Ora, o referencial de conduta não deve ser confundido com conduta perfeita, e sim com uma conduta exemplar até mesmos em casos onde os erros são cometidos, sendo certo que eles acontecerão. Na verdade, o verdadeiro teste moral e ético acontece nos momentos mais críticos.

A terceira chave para a criação de um ambiente mais ético e maduro é o desenvolvimento da dialética. Sim, a promoção de reuniões e painéis onde a ordem é a discordância, mas a discordância polida e ética. Discordar com fundamentação, debatendo ideias e na atacando pessoas. É preciso praticar, somente assim pode-se ficar condicionado a respeitar as ideias do outro meso que sejam diferentes da minha. A criação de painéis para discutir os comportamentos desejados pela empresa é fundamental nos dias de hoje. As ordens e o medo nunca foram suficientes para convencer o ser humano daquilo que deve ser feito e de como deve se comportar. É preciso apelar para a razão e para a emoção.

A quarta chave é a compreensão das relações de poder e a democracia da comunicação. Um ambiente corporativo democrático mão implica em dizer que a vontade da maioria é que deva prevalecer. Há cargos específicos que requerem competências específicas para tomadas de decisões específicas. Um ambiente corporativo democrático é caracterizado pela forma como os colaboradores, sejam líderes ou liderados, se comunicam e são ouvidos. O princípio de uma relação mais harmônica é o direito de poder se comunicar e ser ouvido. E mesmo que ao ser ouvido, seja voto vencido ou a opinião não seja acolhida, a terceira chave ajudará a manter o ambiente mais equilibrado. Afinal, as discussões demandam tempo e, as demandas nem sempre nos proporcionam o tempo desejado para amadurecer as ideias.

A aplicação das quatro chaves não satisfaz o desafio de criar e manter um ambiente harmônico, pois envolvem diversas variáveis controláveis e incontroláveis. Entretanto, permite que sejamos mais proativos neste que é um desafio enfrentado por milhares de trabalhadores ao redor do mundo, no local onde permanecem mais tempo que a própria casa. E ainda, ajuda a diminuir um pouco o muro que separam os diferentes, e os iguais a depender do ponto de vista. Cuidado para não condenar a velha senhora e pagar ao taxista pela própria ignorância. E se gostou do artigo, antes de curtir ou indicar para alguém, faça a sua reflexão e pense em aperfeiçoar o seu jeito de perceber e julgar o próximo, pois a mudança começa com a gente. Procure ser a melhor versão de você mesmo, afinal precisamos aperfeiçoar a convivência, para produzirmos melhor e para vivermos melhor.

Robson Vitorino é professor, palestrante, pesquisador científico, autor do livro Reflexões de um Estrategista (Editora Chiado), consultor e sócio diretor da Maxta Consultoria e Treinamento.

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