Da máquina de escrever para o smartphone. Da primeira máquina de impressão de Gutenberg para as impressoras 3D. É inegável que a tecnologia vem evoluindo e impactando significativamente o nosso estilo de vida. Mas será que podemos dizer o mesmo da ética e da moral? Será que os milhares de anos que nos separam da sociedade grega de Sócrates foram suficientes para criar um cidadão mais civilizado e ético? Será que tivemos uma “overdose” de civilidade nos tornando seres mais “evoluídos”?

Ao contrário da evolução tecnológica e científica, mutatis mutandis, no campo da ética nos faltam provas de que a sociedade contemporânea seja superior àquela de Sócrates. Os aspectos mais sombrios que ameaçam a convivência continuam pairando sobre a Polis. Os homicídios continuam acontecendo, casos bizarros de estupro, onde vários homens abusam de uma mulher continuam sendo manchetes nos noticiários diários. Os casos de violência doméstica continuam sendo uma triste realidade. O que dizer sobre o trabalho escravo e o trabalho infantil? Abuso de poder e os casos de assédio moral e sexual seguem abarrotando o judiciário de processos, e afetando gravemente a saúde mental dos envolvidos.

Mas será possível existir uma “evolução moral”? Ou somos o que somos desde sempre? Será que há um idealismo utópico? Seria utopia uma sociedade mais civilizada e ética?

Estamos diante do pensamento filosófico sobre ética denominado de “Neolítico Moral”. A tese do Neolítico Moral baseia-se no conceito de que há um hiato entre o progresso material da sociedade humana, do conhecimento e da ciência e o progresso moral da humanidade. Há a ideia de que o progresso moral não acompanha o progresso material e as visões que colocam no próprio avanço da civilização a causa da degeneração moral.

Torna-se imperativo refletir ainda sobre a história da sociedade a partir da relação entre individualismo e coletivismo. É facilmente perceptível, que as principais correntes políticas vigentes irão se posicionar claramente a este respeito. Entendemos individualismo como doutrina moral cujo objetivo é a autonomia e liberdade individual. Coletivismo, na perspectiva moral e ética, implica no esforço consciente a partir da interdependência dos seres humanos. Entretanto, não é razoável que haja uma dualidade neste caso. Afinal, o coletivismo é a soma de individualismos. No exercício matemático, o individualismo está contido no coletivismo. A natureza do ser humano é política, sendo impossível viver como apolítico, pois os interesses da polis interferem diretamente na vida do indivíduo, querendo ele ou não. Veja um indivíduo que more na casa dos seus sonhos e é muito feliz com a sua família. Caso, toda a vizinhança em seu redor estiver em guerra, a felicidade do indivíduo estará comprometida independente dele ter interesses em participar da guerra ou não. É preciso fechar o foco no indivíduo e buscar compreender como o individualismo vem descaracterizando a essência humana, causando psicopatologias e prejudicando a qualidade de vida.

A ciência vem cada vez mais colaborando para o a clarificação da filosofia, afastando as abstrações infundadas e confirmando as ideais sobre a natureza ética da humanidade. A Netflix publicou durante um tempo um documentário fantástico chamado “A Revolução do Altruísmo”. Neste documentário é apresentada uma pesquisa onde buscaram identificar se crianças estariam dispostas a ajudar em determinadas situações, como devolver ao dono o lápis que caiu no chão ou abrir a porta para alguém que estivesse trancado. São testes simples, mas a dinâmica por trás é surpreendente. Os resultados indicam que a maioria esmagadora das crianças possui uma forte orientação para a colaboração. Logo, os especialistas sugerem que o comportamento altruísta foi moldado durante a evolução humana. Segundo o biólogo e matemático Martin Andreas Nowak, o nosso cérebro evoluiu no contexto de cooperação com as outras pessoas, contradizendo os discípulos da seleção natural de Darwin.

Portanto, se há fortes indícios de que nascemos como uma forte orientação para a cooperação, Rousseau, Locke e Hobbes estavam equivocados quanto à generalização de que a natureza humana é orientada para o individualismo, com forte inclinação para uma vida em constante guerra se não houver um contrato social para regular a sociedade. Na verdade, a partir das últimas descobertas científicas sobre a inclinação à cooperação, é possível compreender com mais clareza como o ambiente ao qual o ser humano é criado influencia na forma de formar a sua visão de mundo e se relacionar com o seu próximo.

Portanto, torna-se criticamente emergencial a recuperação dos impulsos humanos voltados para a cooperação. Característica este que, ao que tudo indica, foi se perdendo ao longo do desenvolvimento humano, em algumas sociedades contemporâneas. Não se trata aqui da tese do “Neolítico Moral”, e sim da tese do “Retorno moral”, de resgatar impulsos e sentimentos que, de fato, possam garantir uma vida social mais saudável e humanizada, obviamente sem suprimir a liberdade individual, e sim resgatando a saúde mental dos indivíduos. Desta forma, conforma já dito, indivíduos saudáveis formam famílias saudáveis, que formam organizações saudáveis, que formas sociedades saudáveis.

Abrimos mão do contrato social? Claro que não, as divergências e conflitos sempre existirão, a diferença está na forma de lidar com eles. Não estamos aqui romantizando uma sociedade evoluída, isenta de regras e leis por serem desnecessárias. Pelo contrário, estamos buscando resgatar a melhor versão do ser humano, que vem sendo suprimida e esquecida. Ter como padrão, para início das relações o princípio da boa fé.

Das diversas causas já denunciadas como causadoras dos principais problemas sociais, a deterioração do altruísmo e do cooperativismo, é mais uma que certamente, vem sendo para algumas organizações um grave problema, e para outras, uma virtude que agrega um grande diferencial competitivo.

Prof. Robson Vitorino é diretor executivo da Maxta, escritor e professor. Coach Profissional e Leader Coach certificado pela Academia Brasileira de Coaching. É autor dos livros “Delegação de Tarefas e Empowerment” e co-autor do livro “Reflexões de um Estrategista”. É professor de pós-graduação e MBA no IBMEC e Universidade Cândido Mendes.

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